Psicologia do Desenvolvimento


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Interpretação dos Sonhos

Freud, consciente da significação oculta das imagens do subconsciente, havia distinguido duas funções inerentes ao processo onírico: a identificação e displacement (deslocação ou transferência) – que se assemelham à metáfora e à metonímia. Freud considerou o sonho como expressão do subconsciente, i.e., uma projecção da interioridade para a exterioridade, que manifesta desejos reprimidos os quais, segundo Freud, têm uma função retrospectiva. Assim, rejeitou a visão profética da Antiguidade e da Idade Média. No entanto, Carl Gustav Jung, atribuiu ao sonho uma função prospectiva.

Embora as perspectivas psicológicas e filosóficas nem sempre tenham sido consensuais e tenham sofrido alterações e adaptações perante as ideologias e o pensamento vigente em cada período da história, assistiu-se sempre a uma tentativa de compreender e interpretar o processo onírico, estabelecendo a sua importância e a sua especificidade.

 E, sendo o sonho utilizado como um artifício ou recurso no texto literário, sendo ele próprio uma construção narrativa que se encaixa dentro de uma outra narrativa (o texto literário), tem-se procurado aplicar as perspectivas psicológicas e filosóficas directamente e de psicanalisar a literatura. Desde a publicação de Die Traumdeutung (A Interpretação dos Sonhos) de Freud em 1900 a psicologia moderna tem exercido uma profunda influência na crítica literária.

Um filme que marcou a minha adolescência, foi sem dúvida o filme de animação do realizador Richard Linklater, “Waking Life”(2001). Uma viagem de um jovem pelos seus sonhos, fá-lo encontrar uma série de personagens que se disponibilizam para lhe explicar os diferentes significados do universo onírico.

Deixo aqui o trailer, para os mais curiosos:


Freud e a Psicanálise

  A psicanálise caracteriza-se como uma corrente da Psicologia que busca o fundamento oculto dos comportamentos e dos processos mentais, com o objectivo de descobrir e resolver os conflitos intra-psíquicos geradores de sofrimento psíquico. Segundo Freud a nossa mente consciente não controla todos os nossos comportamentos, pois mesmo os nossos actos voluntários, resultantes de uma deliberação racional, estão dependentes de um fonte motivacional inconsciente. O inconsciente define-se como uma zona do psiquismo constituída por desejos, pulsões, tendências e recordações recalcadas, fundamentalmente de carácter sexual. Freud apresenta duas interpretações do psiquismo humano: a primeira e a segunda tópica.

  Na primeira tópica recorre à imagem do icebergue: o consciente corresponde à parte emersa, enquanto o inconsciente corresponde à parte submersa, do icebergue sendo por isso muito maior relativamente ao consciente. Os materiais inconscientes, que não são acessíveis através da auto-análise, tendem a tornar-se conscientes, no entanto este acesso às pulsões e desejos inconscientes é impedido pelo racalcamento. O recalcamento é um mecanismo de defesa que devolve ao inconsciente os materiais que procuram tornar-se conscientes. Tal como este mecanismo também existe o contrário: o pré consciente, que permite que alguns conteúdos do inconsciente acedam à consciência “disfarçados”, de modo a evitar distúrbios ao nível do consciente.

  Relativamente á estruturação do psiquismo, Freud apresentou três instâncias: id, ego, superego.

O id é a zona inconsciente, primitiva, a partir do qual se forma o ego e o superego; está desligado

do real, não se orientando por normas ou princípios morais sociais ou lógicos. É formado por instintos, impulsos

 orgânicos, desejos inconscientes e regido pelo princípio do prazer que exige satisfação imediata.

O ego é a zona fundamentalmente consciente, que se forma a partir do id e rege-se pelo princípio da realidade, ou seja, à necessidade de encontrar objectos que possam satisfazer o id sem transgredir as exigências do superego. Forma-se durante o primeiro ano de vida.

O ego tem vários mecanismos de defesa além do recalcamento, que são os seguintes:

Racionalização ou intelectualização – É um conjunto de estratégias de justificação de comportamentos, pensamentos, tendências psíquicas , lógicas, com o fim de evitar sentimentos de inferioridade que ponham em risco a auto-estima.

Projecção – Têndencia que os seres humanos têm para atribuir aos outros, comportamentos, sentimentos e desejos que, sendo deles próprios, são muitas vezes tidos como inaceitáveis.

Deslocamento – Mecanismo libertador que ocorre quando um indivíduo, não podendo atingir determinado objecto, o substitui por outro, sobre o qual descarrega as suas tensões acumuladas.

Regressão – Mecanismo segundo o qual o indivíduo adopta formas de conduta próprias de estádios anteriores de desenvolvimento em que o indivíduo se sentia em segurança.

Compensação ou formação reactiva – Mecanismo de defesa contra qualquer tipo de inferioridade fisiológica ou psicológica, seja ela real ou não, que consiste na adopção de comportamentos contrários ao desejo.

Sublimação – O sujeito substitui o fim ou o objecto das pulsões de modo que estas se possam manifestar em modalidades socialmente aceites.

O superego é a censura das pulsões que a sociedade e a cultura impõem ao id, impedindo-o de satisfazer plenamente os seus instintos e desejos. É a repressão sexual. Manifesta-se na consciência indirectamente, sob a forma de moral, como um conjunto de interdições e deveres, e por meio da educação, pela produção do “eu ideal”, isto é, da pessoa moral, boa e virtuosa.


Id, Ego e Superego – As estruturas da Mente Humana

 A partir de 1920, Freud apresenta a segunda teoria sobre a estruturação do psiquismo, que é constituído por três instâncias: id, ego e superego.

ID – zona inconsciente, primitiva, instintiva, a partir da qual se formam o ego e o superego. Existe desde o nascimento e é constituído por pulsões, instintos e desejos completamente desconhecidos. Rege-se pelo princípio do prazer, que tem como objectivo a realização, a satisfação imediata dos desejos e pulsões. Grande parte destes desejos é de natureza sexual. O id é o reservatório da libido, energia das pulsões sexuais.

EGO- zona fundamentalmente consciente, que se forma a partir do id. Rege-se pelo princípio da realidade, orientando-se por princípios lógicos e decidindo quais os desejos e impulsos do id que podem ser realizados. É o mediador entre as pulsões inconscientes e as exigências do meio, do mundo real. Tem de gerir as pressões que recebe do id e as que recebe do superego. Forma-se durante o primeiro ano de vida.

SUPEREGO é a zona do psiquismo que corresponde à interiorização das normas, dos valores sociais e morais. Resulta do processo de socialização, da interiorização de modelos como os pais, professores e outros adultos. É a componente ética e moral do psiquismo. Pressiona o ego para controlar o id. O superego forma-se entre os 3 e os 5 anos.

  A vida psíquica é, para Freud, dinamizada por um conflito de forças que se desenrola em grande parte fora da percepção consciente do indivíduo. O psiquismo é uma totalidade dinâmica, apesar de as suas estruturas componentes terem diferentes funções e serem regidas por diferentes princípios.


Freud e o Desenvolvimento Psicossexual

  Aqui, o desenvolvimento da personalidade está centrado no desenvolvimento psicossexual.  

  Sigmund Freud nas suas investigações na prática clínica sobre as causas e funcionamento das neuroses, descobriu que a grande maioria de pensamentos e desejos reprimidos referiam-se a conflitos de ordem sexual, localizados nos primeiros anos de vida dos indivíduos, isto é, na infância estavam as experiências de carácter traumático, reprimidas, que se configuravam como origem dos sintomas actuais e, confirmava-se, desta forma, que as ocorrências deste período de vida deixam marcas profundas na estruturação da personalidade. As descobertas colocam a sexualidade no centro da vida psíquica e é desenvolvido o segundo conceito mais importante da teoria psicanalítica: a sexualidade infantil. 

 Foi no segundo dos “Três ensaios de sexualidade” das obras completas, que Freud postulou o processo de desenvolvimento psicossexual, o indivíduo encontra o prazer no próprio corpo, pois nos primeiros tempos de vida, a função sexual está intimamente ligada à sobrevivência. O corpo é erotizado, isto é, as excitações sexuais estão localizadas em partes do corpo (zonas erógenas) e há um desenvolvimento progressivo também ligado as modificações das formas de gratificação e de relação com o objeto, que levou Freud a chegar nas fases do desenvolvimento sexual:

Estádio oral

  Decorre do nascimento até cerca dos 12/18 meses. A zona erógena é a boca: o bebé obtém prazer ao mamar, ao levar objectos à boca, bem como através de estimulações corporais. A sexualidade é auto-erótica. O desmame corresponde a um dos primeiros conflitos vividos. É neste estado que o ego se forma.

 Estádio anal

  Decorre dos 12/18 meses aos 2/3 anos, e a zona erógena é a região anal. A criança obtém prazer pela estimulação do ânus ao reter e expulsar as fezes. O controlo da defecação gera, simultaneamente, sentimentos de prazer e de dor. É nesta fase que se faz a educação para a higiene, relativamente à qual a criança ou cede ou se opõe ao cumprimento das regras. A ambivalência está, assim, presente nas interacções que estabelece com a mãe ou outros cuidadores.

 Estádio fálico

  Decorre dos 3 aos 5/6 anos. A zona erógena é a região genital: os órgãos sexuais são estimulados pela criança, que assim obtém prazer. A curiosidade sobre as diferenças sexuais é grande. É neste estádio que surgem os complexos de Édipo e de Electra, que consistem na atracção da criança pelo progenitor do sexo oposto e agressividade para com o progenitor do mesmo sexo. É com este, que surge como modelo, que ela se vai identificar. A identificação leva a criança a adoptar os seus comportamentos, valores e atitudes. É a sua interiorização que conduz à formação do superego. É através do processo de identificação que se supera o complexo de Édipo.

 A limitação referida é interiorizada sob a forma de tabu do incesto para cuja formação contribuem o sentimento inconsciente de culpa desenvolvida pelo Superego e as restrições sociais. Freud sublinha que a repressão do complexo de Édipo ou, mais propriamente, a sua ultrapassagem marca a etapa final do desenvolvimento do Superego. Este será o herdeiro do complexo de Édipo e a instância que se ergue contra o incesto e a agressividade..

Estádio de latência

 Decorre entre os 5/6 anos até à puberdade. Este período é caracterizado por uma aparente atenuação da actividade sexual. Seria neste estádio que ocorreria a amnésia infantil: a criança reprime no inconsciente as experiências que a perturbaram no estádio fálico. A criança investe a sua energia nas actividades escolares, ganhando especial importância as relações que estabelece entre os colegas e os professores.

 Vários intérpretes de Freud consideram que o estádio de latência é mais uma pausa do que um período de desenvolvimento psicossexual (não há nenhuma área específica do corpo do corpo que pose ser destacada como zona erógena e nenhum conflito psicossexual). Outras interpretações sugerem que nesta fase, sobre a qual Freud pouco disse, as crianças aprendem a esconder a sua sexualidade do olhar desaprovador dos adultos. Seja como for, a relativa emancipação em relação ao universo familiar prepara o caminho para que o afecto e a atracção sexual assumam uma forma adulta.

  No final deste estádio o aparelho psíquico está completamente formado

Estádio genital

 A partir da puberdade a zona erógena é a região genital. É o último estádio de desenvolvimento da personalidade, em que há uma activação da sexualidade que esteve latente no período anterior. Apesar dos investimentos afectivos se desenrolarem fora da família, há uma reactivação do complexo de Édipo. O processo de autonomia relativamente aos pais passa por os encarar de forma mais realista. O prazer sexual envolve todo o corpo, integrando todas as zonas erógenas.

 A sublimação é especialmente importante neste período porque os impulsos do ID (egoístas e agressivos) continuam e continuarão activos. A sublimação significará transformar os impulsos libidinais convertendo-os em energia útil para o casamento, a educação dos filhos e o desempenho profissional.

 

Freud viveu numa época e numa cultura que reprimiam fortemente a sexualidade desde a infância. Os sintomas neuróticos, as doenças psicossomáticas, os sofrimentos causados pela culpabilização, as regressões, etc., que ele encontrou nos seus pacientes, estavam relacionados com a vida sexual. Na sua origem estaria a experiência traumática ocorrida na infância. A descoberta da sexualidade infantil levou Freud a modificar as suas noções, distinguindo genital de sexual. Aqui entra o conceito de “pulsão” – a sexualidade não se limita ao acto sexual entre duas pessoas: a sexualidade era toda a actividade pulsional que tende a uma satisfação.

Para conhecer mais pormenorizadamente a origem das teorias deste velho sábio da psicologia, aconselho o filme/documentário “Freud – Além da Alma”. Aqui vai o link para a sua visualização:

    http://www.youtube.com/watch?v=o-UuyIXtRi0&feature=related – parte 1 (através deste mesmo link, poderão aceder às restantes partes do filme)